“VIVÁSOBRAS!”

Margarida Negrais de Matos

 Ano lectivo 2007/08

A todos os que lerem, e aos outros também:

Muito, mas muito, agradecemos a colaboração da professora Margarida com esta crónica… e as seguintes. Que sirva, também, para incentivo a que outros deem o seu contributo com textos e todo o material que tiverem para estas recordações. As fotos desta jornada estão já publicadas mas esperamos outras para o complemento que, não sendo eterno, mais possa ilustrar as memórias de quem passou pela escola e que, de uma ou outra forma, aqui deixou raízes. Até mesmo aqueles que a esqueceram ou assim o quiseram. Este texto é vívido e sumarento. Fica à consideração de todos. Fica também, de novo, o filme dos acontecimentos.

https://onedrive.live.com/?cid=59F0C5A02C11956D&id=59F0C5A02C11956D%21125272&parId=59F0C5A02C11956D%21125229&o=OneUp

Ei-lo que chega, triunfante na sua cor azul-porto, resfolegante, reluzente no seu ar de máquina de última geração, com quatro sólidos pés de borracha, enormes e redondos, maior o par de trás do que o da dianteira; vem avançando, com o seu atrelado igualmente azul, a condizer com a restante carroçaria… Impante, dirigia-se para nós que, tranquilamente até ali, fazíamos teste de Português na sala 1 (não esquecer que se situa na cave e uma fila de janelinhas fica ao nível do solo) e, de repente, achámos que ele ia entrar pela sala dentro e sentar-se, após ter derrubado paredes e janelas, junto a nós, igualmente a fazer teste… Mas não! À última hora o tractor inflectiu, virou à esquerda, e preferiu ir encher-se de ervas daninhas, de folhas mortas acumuladas durante três longos Outonos suplicantes das prometidas obras, de restos de arbustos decepados recentemente, na sanha de limpeza intempestiva e inesperada dos funcionários camarários…

         De repente, começou a ouvir-se um outro ruído forte, de potente motor, e vimos avançar um corpulento camião amarelo, amarelíssimo, conduzido por uma tripulação que, no seu português vernáculo, se esquecia que estava numa escola e nós, ao vê-lo enquadrado nos limites do caixilho de  alumínio de uma das janela da sala de aula, tal como se fosse num televisor, estranhámos não ver a clássica bolinha vermelha no canto superior direito da mesma e não ouvir o estridente e respectivo “piiiiiiiiiiiiiiii” anunciador de inconveniência…

         Este, o amarelão, começou então a engolir no seu bojo escuro e misterioso doses maciças de detritos, terra, papéis, garrafas de plástico, embalagens de iogurte, borrachas perdidas por distraída e jovem mão, invólucros de chiclete e de bolachas, pedaços de lápis já sem préstimo, carcaças esventradas de velhas esferográficas… E, mercê da sua acção, o pátio ia ficando cada vez mais desanuviado e limpo!

         Não lhes vi as cores nem os tamanhos, mas houve-os que vieram transportando areia, cimento, tijolos, brita, ferramenta variada e carregavam, sem que o suspeitássemos, a nova guarita ainda informe, indefinida, em projecto…

         No átrio da escola, trazidos por furgões, furgonetas, carrinhas de caixa aberta e fechada, acumulavam-se, primeiro, baldes e baldes de tinta, a que se seguiram caixotes de todos os tamanhos, de cores e inscrições variadas e coloridas, num “Lego” próprio para gigantes, que anunciava de imediato o relativo caos que iria seguir-se!

         No entanto, por trás destes volumes, ainda restava a D. Maria José, é certo que já meio escondida, mas ainda dentro do seu aquário de cristal, que nos enviava a saudação habitual, à chegada ou despedida e, pelo menos esse gesto, afável e diário, era o mesmo de sempre e tornava tudo menos irreal!

         Mas isso que achávamos que só podia ser o caos, revelava-se, de repente, o milagre da criação e onde, no dia anterior, alunos cavaqueavam ruidosamente à frente de um computador, em cadeiras verdes de esplanada, da noite para o dia, cresceram tijolos, nasceram paredes, duas portas, janelas, uma nova valência: “Papeloreprografia, uma saborosa parceria ao seu dispor para o servir!”

         Progredindo para o interior da escola, andando pelos corredores, descobríamos, sobre as nossas cabeças, novos corredores, perdão!, novas auto-estradas – as da informação! Novas, novíssimas, em formato de elegantíssimos fios lilases, acomodados às centenas (?) em longas cestas metálicas que pendiam do tecto! Todos da mesma cor e grossura! Nem a fibra óptica escapa ao “design” de moda e à globalização! Cabeleira futurista penteada em longo cabelo liso digno de Dali ou obrigatoriedade de fato uniforme à Mao Tsé Tung de outras eras?

         Progredindo ainda mais para o interior da escola e tentando passar para outro edifício, subitamente, O GRANDE CHOQUE – a constatação dolorosa de que nada é definitivo nesta vida! Aquela obra de arte dos dias de hoje, aquela forma de arte urbana, o “grafitti”, aquela declaração de amor publicamente assumida, que eu tinha tomado por imorredoira, a jura de amor já velha de três anos, que resistira a três Invernos, escrita na vedação metálica que nos impedia a vista das presumíveis obras, só permitida a iniciados, aquele grito incontido: “Amo-te, Patrícia!”, destruída! A fenda abrira-se, instalara-se a dúvida, o amor terminara: A…..m…t……..ia! A jura perdera o sentido, desmoronara-se a promessa! Conseguirei recompor-me de tal perfídia?

À vista, agora, a menina dos olhos das obras: O CMI…

Impenetráveis, indecifráveis, misteriosas como todas as siglas, aquelas letras o que significavam?

Entremos com a curiosidade de três longos anos refreada, virgem!

C de Centro – claro! Como não pensei nisso antes? Realmente, fica no coração dos edifícios que compõem a escola…

M de Multidisciplinar! Igual a: comum a várias disciplinas! O quê? Não posso crer! Um espaço para todas as disciplinas? Nunca mais teremos de ir para as salas 45, 26, 27…? Não me acordem deste sonho!

I de Interactivo! É para interagirmos? Mas como? Posso mesmo dizer adeusinho à colega que dá aulas para lá do vidro? Ai que bom! Por favor, não me acordem mesmo deste sonho!

         No meio de toda esta azáfama a que se juntavam as actividades habituais e quotidianas, como horários a cumprir, aulas a dar, campainha a tocar a horas exactas, matrizes a entregar nos prazos, testes e provas de exame a elaborar para dias aprazados, Encarregados de Educação a receber, visitas de estudo a acompanhar, convites para apresentação de trabalhos de Área de Projecto a aceitar, componente não lectiva a cumprir, testes a corrigir, decisões sobre passagens/ reprovações a afligir e a fazer guerra entre coração e razão, no meio de tudo isto, dizia eu, sentíamo-nos tão perdidos, tão cansados que, quando víamos as simpáticas e solícitas carrinhas brancas que anunciavam – Assistência Técnica – só tínhamos vontade de embarcar imediatamente numa delas para nos arranjarem, nos comporem, nos reciclarem, nos consertarem, se conserto ainda fosse possível! E a questão, quando se avança na idade e se continua a dar aulas fingindo que o tempo não passou por nós, a questão sacramental é sempre a mesma: ainda haverá peças para mim?

E como, quando este mar proceloso, varrido por ventos ciclónicos de modernidade, amainar, continuará a haver domingos como havia antes, mas mãos rapaces, essas serão mais gulosas e mais ávidas da nossa nova escola, recheada, renovada, fresquinha como uma “super-nova” após explosão; mas elas lá estarão, as câmaras, em cada esquina, vigiando este nosso espaço, com o seu olho mecânico mas atento, na nossa ausência, na quietude morna do fim -de- semana.

Sim, nosso, porque cada um de nós o sente como seu, porque aí esteve horas a fio, passando por algumas tristezas, mas vivendo também muitas alegrias. É que cada um de nós aí esteve não só transmitindo conhecimentos, mas também desbravando selvas, mostrando caminhos, pintando paredes, abrindo sorrisos, secando lágrimas (quem secará as nossas?), em resumo, fazendo coroas de flores pelo primeiro de Maio com as prestimosas funcionárias da Secretaria para afastar maldade…

 POR ISSO,VIVÁSOBRAS!

Margarida Negrais de Matos

 Ano lectivo 2007/08

NB – A autora não observa o AO

1 thought on ““VIVÁSOBRAS!””

  1. NB — “VIVÁSOBRAS” não observa acordo algum!

    Sem obra não há obras.
    As obras vão,
    a obra fica.
    Que os obreiros não fiquem esquecidos.

    Vivàmargarida!

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