A criação do logótipo

Não podemos deixar de agradecer à Professora Margarida Matos esta crónica. E esperamos que sirva de incentivo a que outros se nos juntem para registo de memórias individuais ou coletivas para ilustração de todos. Deixamos ainda uma nota sobre a polémica instalada no conselho pedagógico da altura, aquando da aprovação do logótipo, com acusações de analogias com plantas psicotrópicas e estupefacientes. Mas foi aprovado, e hoje vigora, tendo sofrido algumas alterações.

O logótipo da ESSL

Muitas histórias começam por “Era uma vez…”

Esta também assim poderia começar…

No início, era o Zé Emídio, o nosso artista sempre disponível para atender aos pedidos de colaboração dos colegas, que desenhou, para a Regina Moura, uma folhinha de trevo para um autocolante que a colega lhe pediu para oferecer aos novos alunos no início de um ano lectivo. Mais tarde, passou sob os olhos do artista, sempre atentos para o que é belo, uma outra folha de um arbusto, num jardim antigo, mas essa ele passou a vê-la com muita frequência e a reparar nela com atenção. Mais tarde ainda, coincidência ou não, voltou a ver o mesmo arbusto nos Jardins da Gulbenkian e foi aí que fixou a folha para sempre. De tal modo, que essa folhinha passou a figurar frequentemente nas suas pinturas, fossem quadros ou ilustrações dos livros em que trabalhava.

Quando se pensou, na ESSL, que esta deveria ter um logótipo, ou seja, um símbolo que identificasse instantaneamente a escola e simbolizasse os seus valores essenciais da forma mais memorável possível, recorreu-se de novo ao sempre amável e disponível professor Zé Emídio (que tinha, aliás, correctíssimas exigências estéticas em relação a tudo o que os colegas que não de Artes afixavam nas paredes da escola!) e logo lhe veio à memória servir-se daquela elegante e estilizada folha. E trabalhou a ideia em parceria com o colega Paulo Duarte.

 Lembremos como apropriado é o símbolo de uma folha para identificar uma escola: desde a Antiguidade que a folha é símbolo do ciclo da vida e da morte na Natureza. Assim, uma folha bem verde só pode ser símbolo de vida, de alegria e de promessa de prosperidade. Ora, para nós, professores, é isto que tentamos construir todos os dias nas escolas, com os olhos bem postos no futuro. Todavia, é natural que o artista, para além desta simbologia genérica, tenha encontrado outras que só ele sabe… Não terá sido pela sua origem japónica, notícia chegada ao Ocidente em pleno século XVIII, e aqui introduzida em 1804, que foi eleita? Não me parece. Terá sido porque chamam ao arbusto a que pertence essa folhinha “ bambu sagrado”? É bem verdade que a função da escola é sagrada… O que terá atraído o olhar do artista não terão sido as correspondentes flores, que não são particularmente chamativas, nem mesmo as bagas vermelhas que se lhes seguem. O que lhe chamou a atenção no arbusto foram mesmo e apenas as folhas. Bem sei que têm características muito distintivas e particularmente decorativas: na Primavera, ao emergirem, vestem-se de um singular vermelho acastanhado, tornam-se progressivamente verdes, verdes, para depois, no Outono, se colorirem com uma bela tonalidade muito próxima do púrpura, talvez para, com esse estratagema, iludirem os rigores invernais. As folhas deste arbusto são grandes (20 a 30 centímetros), são compostas, bipenadas, mas terão sido os seus folíolos de formato leve e gracioso, longos e estreitos, lanceolados, quase em forma de losango, que terão tocado a sensibilidade estética do artista. Por vezes, os artistas plásticos estabelecem com as formas que se lhes apresentam no seu dia- a -dia, sejam elas de que natureza forem, ligações e atenção particulares que, muitas vezes, por razões que não se explicam, passam a povoar o seu repositório de imaginários gráficos, sempre num pressuposto de utilização nas mais variadas circunstâncias da sua produção artística.

Chama-se este arbusto, de sua graça, nandina domestica.

E eu, que amo o mundo vegetal, quando me apercebi que as folhas de teste da escola tinham passado a apresentar-se elegantemente decoradas com a folhinha da nandina, logo entendi que a sua presença física, não apenas gráfica, num canteiro da escola, era absolutamente essencial, corri logo a procurar uma.

E hoje, essa oferta à minha escola, lá permanece ainda, à entrada do edifício principal, do lado direito e, pelo aspecto, parece feliz…

Margarida Negrais de Matos                                            

  (A autora não observa o AO) 

Vila Nova de Gaia, 24 de Março de 2021                                                          

Nandina domestica oferecida à escola pela professora Margarida Matos
pormenor da planta
porta de entrada do estúdio do professor José Emídio
pormenor da planta em causa
conceção inicial do logótipo pelo professor Paulo Duarte
Autoria: José Emídio e Paulo Duarte
Autoria: Paulo Duarte
Autoria: Alunos do Curso de Design
Gráfico (2009-2012) supervisionados
pela docente Gabriela França
Autoria: Reformulação – Belisa Rodrigues

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